Designer? Que nada!

Designer? Que nada!

  Carolina Samorano – Especial para o Correio O premiado Sérgio Rodrigues prefere ser chamado de arquiteto
Carlos Silva/Esp. CB/D.A Press
O arquiteto Sérgio Rodrigues assinou alguns dos mais cobiçados móveis dos apaixonados pelo mobiliário brasileiro dos anos 1960. Hoje, aos 82 anos, é um artífice da simplicidade. O gênio do design nacional, premiado por aqui e no exterior, é avesso à “bobagem desse tal estrangeirismo”. Portanto, deixemos o designer de lado: ele prefere arquiteto, o nome que consta em seu diploma da antiga Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Muitos dos móveis que mobiliaram os órgãos públicos da capital federal saíram das pranchetas desse artista. No dia em que concedeu essa entrevista à Revista, estava especialmente animado. Foi à Brasília conhecer o trabalho dos jovens moradores do Entorno que integram a Oficina de Restauro de Mobiliário Moderno, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) do Distrito Federal. Eles trabalham na revitalização do mobiliário original dos órgãos públicos, incluindo algumas das criações de Sérgio Rodrigues. Cinco décadas depois de ter entregue ao governo suas peças, foi a primeira vez que conseguiu ver um futuro próspero para as antigas criações. “Eles estão de parabéns”, concluiu, satisfeito, ao observar o trabalho dos meninos. Para a Revista, Sérgio contou histórias de algumas de suas criações, comentou um pouco sobre o design de móveis no Brasil e a sensação de ver suas peças ganharem uma segunda chance por meio de um programa social. Emociona ver seus móveis sendo restaurados e ganhando utilidade novamente, em vez de acabarem abandonados num depósito ou serem vendidos? Eu choro à toa, né? Mas emociona, sim. Principalmente aqueles especiais, como a mesa Itamaraty. Eles mereciam essa atenção e eu já não estava vendo mais possibilidade de eles serem restaurados. Perdi as esperanças quando, na década de 1970, completei um mobiliário para o Banco Central. Dois anos depois, quando voltei, vi tudo atirado num depósito. Fiquei muito triste, mas compreendo, porque algumas coisas eram impostas, e eles tinham que aceitar. Se mandassem tirar, tiravam. Mas agora estão em boas mãos. Algumas peças estão até mais perfeitas do que quando as entreguei. Eles captaram a minha mensagem e estão conseguindo traduzi-la de forma excepcional.
Divulgação
Poltrona Mole (acima), um clássico: a princípio, ninguém comprou. Carinho especial pela cadeira Diz (abaixo), uma das criações preferidas
Que imposições eram essas? Esse mobiliário com cara de Brasil não era muito aceito. Nem tudo o que eu fazia era sucesso. A poltrona Mole, por exemplo. Ela tem um formato diferente, pelo menos tinha na época. Em 1957, quando a terminei, ela ficou um ano na vitrine. Ninguém comprou. Pensei que seria um caso de fracasso. Acho que as pessoas passavam e pensavam: “Coitado, começou tão bem, e agora está fazendo cama para cachorro (risos)”. E agora? As pessoas aceitam mais ou menos o design brasileiro? Acho esse negócio de design uma bobagem, um estrangeirismo sem necessidade. Não que eu não goste de ser chamado de designer, porque as pessoas chamam, mas prefiro arquiteto, porque é o que sou. Uma vez fui à Espanha e parabenizei os espanhóis porque eles não se entregam a essas coisas. Usam dibujo ou diseño, que é muito mais bonito. Mas, voltando, o novo é sempre difícil. Leva um tempo para se acostumar. Naquela época, foi difícil e os estilos também mudam depressa. Hoje é diferente, não é tão difícil assim. Mas essa tendência de imprimir brasilidade aos móveis começou na década de 1940 com o (Joaquim) Tenreiro, e demorou até ser incorporado. E o mobiliário de hoje? O que o separa da sua geração em termos de criação? Não dá para comparar. Existem diversos novos arquitetos com um bom potencial. E mesmo quando você vai a lojas grandes de decoração, mais populares, você encontra coisas de muito boa qualidade. Móveis que, na essência, se parecem com esses meus, porque foram criados com um propósito, têm uma poesia. Hoje em dia, também existem esses cursos de desenho que na minha época não tinha. No curso, você pode aprender uma técnica ou outra, mas elas não servem de nada se a pessoa não tem vocação. Desenhar é um problema de inspiração. O camarada nasce com aquilo. E como é o seu momento de criar? De onde vem a inspiração? Eu costumo dizer que sou cliente de mim mesmo. Crio como se estivesse fazendo móveis para colocar na minha casa. Não sigo tendências, nem nada. Faço o que quero, o que tenho vontade naquela hora. Mas imprimo um significado em tudo, uma poesia. Vem de dentro. Tem alguma criação pela qual tenha um carinho especial? Todas são como filhos. Não dá para escolher, mas muda toda hora, é de momento. Já foi a poltrona Mole, agora acho que é a Diz. Mas, imagina, são 1,2 mil peças. Tem muitas que são especiais, algumas únicas, que fiz só um protótipo, para uma pessoa que encomendou. Cada uma com uma história. Algumas pessoas colecionam móveis do senhor como relíquias… Devem ser pessoas muito ricas, né? (risos). Mas que bom, fico feliz sabendo que as pessoas entendem a minha mensagem. A criação é sempre uma mensagem. Se ela é captada e aceita, é maravilhoso e é por isso que as peças duram por anos.

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