Livro resgata trabalho de Burle Marx

 

Gustavo Werneck

 

Beto Novaes/EM/D.A Press

Canteiros repletos de flores enfeitam e compõem a Igreja São Francisco de Assis, um dos principais cartões-postais da capital

Os jardins da Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, cartão-postal de Belo Horizonte e joia modernista nacional, já foram cobertos de roseiras. E mais: na década de 1940, ao serem projetados pelo paisagista e artista plástico Roberto Burle Marx (1909-1994), os canteiros se prolongavam além da Avenida Otacílio Negrão de Lima, onde hoje há uma praça, dando mais beleza e amplidão a este espaço nobre da capital. Em outros pontos da região, as formas concebidas pelo paisagista foram preservadas, embora com substituição das espécies vegetais escolhidas originalmente, num efeito que, sem dúvida, “deixaria Burle Marx muito irritado”. O comentário e as descobertas são do arquiteto e urbanista mineiro Ricardo Lana, que pesquisou, durante 15 anos, a obra do artista na década de 1940, período fértil em que trabalhou com o botânico carioca Henrique Lahmeyer de Mello Barreto (1892-1962) e ganhou projeção internacional.

Além dos projetos para praças, residências e monumentos da Pampulha, são da mesma época os jardins do Parque do Barreiro, em Araxá, no Alto Paranaíba, do Grande Hotel de Ouro Preto, na Região Central, e de duas residências em Cataguases, na Zona da Mata. No total, foram 16 jardins projetados, uns conservados, outros mutilados, alguns destruídos e ainda aqueles que nem saíram do papel. O resultado da extensa pesquisa de Lana está no livro em dois volumes Arquitetos da Paisagem – Memoráveis Jardins de Burle Marx e Henrique Lahmeyer de Mello Barreto – Década de 1940, que será lançado quinta-feira, às 18h, no Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB), em BH. Fotos do passado e do presente, reprodução de projetos de paisagismo e versão em inglês do texto integram a obra, que será distribuída a instituições públicas, bibliotecas e museus e vendida no MHAB. Uma preciosidade é o conjunto de plantas da Pampulha, feitas em papel vegetal e desenhadas a nanquim, localizadas há alguns anos na prefeitura e com cópia nessa publicação.

Veja mais fotos dos jardins de Burle Marx

Conhecer o livro é ótimo – melhor ainda ter Lana como guia num passeio pelos jardins da Pampulha, lugar que, segundo ele, foi a grande vitrine para Burle Marx. A primeira parada é na Igreja de São Francisco de Assis, combinação harmoniosa do traçado do arquiteto Oscar Niemeyer, de 102 anos, com os canteiros nos quais predomina a Canna generallis nos tons vermelho e amarelo, num contraste forte com as águas da represa. “As rosas, que homenageavam a Virgem Maria, foram retiradas, o que é uma pena. Mas ficaram os canteiros acompanhando as passarelas, em curva, de pedra portuguesa, realçando a parceria dos dois. Defendo que todos esses canteiros deveriam ter a vegetação original. Burle Marx exigia que ninguém mexesse nos seus jardins e que respeitassem as suas especificações”, afirma Lana.

HARMONIA

O certo mesmo é que a igrejinha e seus jardins são sempre uma atração para visitantes. Na quinta-feira, as professoras universitárias Isilda Perez e Isabel Moniz, de São Paulo (SP), não se cansavam de admirar a singela construção que tem painéis de Cândido Portinari (1903-1962) e mosaicos de Paulo Werneck (1907-1987). “Tudo está bem cuidado e bem bonito”, comentou Isilda. Ao ouvir, Lana disse que, sem paisagismo, esse patrimônio não teria a mesma beleza, “pois há uma integração indissociável entre o trabalho de Niemeyer e o de Burle Marx”. Ele cita como outro marco dessa sintonia a Casa do Baile, atual Centro de Referência de Urbanismo, Arquitetura e Design/Fundação Municipal de Cultura, que teve o primeiro jardim concluído na época: “Aqui precisaria de, no mínimo, cinco jardineiros para dar conta do serviço, mas só há um. Além disso, a Casa do Baile ficou mais de um mês sem esse funcionário”, critica Lana. Aposentado e agora contratado como terceirizado, o jardineiro Jésus Pereira de Souza, de 55 anos, conta que cuidado é fundamental para garantir flores fortes e saudáveis. A Administração Regional Pampulha informa que vem dando manutenção semanal em todos os jardins da orla, com recente capina e plantio de árvores.

Darcy Trigo/O Cruzeiro/EM – 25/07/1963

O paisagista Roberto Burle Marx



No roteiro sobre a obra de Burle Marx, da década de 1940, estão a Casa de Juscelino Kubitschek, vinculada ao MHAB e em restauração, que apresenta jardins com as formas ameboides e ganharam das mãos do paisagistas massas de flores e arbustos nativos. “Burle Marx era um grande conhecedor da nossa flora. E esses conhecimentos se fortaleceram com os estudos aprofundados, em Minas, do botânico Mello Barreto”, explica Ricardo Lana. Com seu livro, que vem dentro de uma caixa, o arquiteto e urbanista quer contribuir para a história do paisagismo internacional: “O serviço dos dois foi antológico. Juntos, eles criaram os jardins tropicais e incluíram, em espaços maravilhosos, plantas até então consideradas mato”.

Diante do Museu de Arte da Pampulha (MAP), antigo Cassino, Lana lembra que o paulista Burle Marx chegou a Minas trazido por Benedito Valadares (1892-1973), que governou o estado de 1933 a 1945: “Ele foi responsável pelo Parque do Barreiro, em Araxá. Depois, veio para a capital e conheceu Mello Barreto, que criara o Jardim Botânico, na década de 1930, onde está o Hospital da Baleia, na Região Leste da capital”. Para Lana, os jardins do MAP são os mais elegantes criados na Pampulha, mesmo que já tenham sido adulterados ao longo dos anos.

Nessa jornada, há lugares que o arquiteto e urbanista não pôde nem mostrar nos seus livros, caso da situação atual da Praça Alberto Dalva Simão, antiga Santa Rosa, que vem recebendo toda sorte de agressões, como pichação na estrutura de pedra-sabão, sujeira, pedras arrancadas e árvores invasoras. “É um absurdo deixarem esses jardins nesse estado”, lamenta com tristeza. De acordo com a Regional Pampulha, há projeto de revitalização das 10 maiores praças públicas da região, que já conta com levantamentos de material e de custo e foi enviado à Sudecap. No entanto, não há previsão de início das obras. O livro Arquitetos da Paisagem tem patrocínio, via Lei Rouanet, de Furnas, Petrobras, Eletrobras e Prefeitura de Belo Horizonte.

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