O dia em que nao cumprimentei Mario Lago

Existem gestos na vida que nos dão um arrependimento danado, mas não há maior remorso do que aquele que provém do gesto não realizado. Aconteceu comigo, num quase encontro com Mário Lago, poeta e músico, ator e advogado, ativista político e Homem de seu tempo – assim mesmo, com H maiúsculo, para diferenciá-lo dos imbecis que povoam nosso cotidiano. Foi numa galeria na Avenida Paulista, em São Paulo, num novembro de 2001, final de tarde. Sentado num banco o poeta esticava sua preguiça com as longas pernas cruzadas em arco… Ameacei seguir em sua direção, postar-me ao seu lado e com todo o respeito que meus pais me ensinaram dizer-lhe apenas que era um seu admirador. Apenas isso, nada mais. Segui adiante, mas a vergonha foi maior que a coragem, e passei reto me esforçando em demonstrar uma indiferença natural… Pode parecer idiotice, ato explícito de tietagem tola, mas este é um dos gestos de que me arrependo amargamente: o de não ter apertado as mãos do autor de “Amélia”, “Aurora” e tantos outros sucessos de nossa música, e de expressar meu encanto e admiração por um homem que viveu na plenitude e com intensidade seus 90 anos de vida. Há gestos mais vitais que esse, eu sei, como aqueles que envolvem entes queridos, coisas que deveríamos ter dito e não dissemos, emoções que deveríamos ter expressado e não expressamos, coisas que não fizemos quando havia tempo e oportunidade… Mas a figura paternal de Mário Lago faz-me até hoje sofrer pelo elogio não declarado, pela emoção não revelada. Alguém poderá dizer que esse gesto não teve nenhuma significância para o grande ator. Eu sei, e jamais imaginei isso. O que sei, e é o que importa, é que para mim fez uma enorme e brutal diferença. Afinal, cada vez se torna mais difícil encontrar pessoas que me façam sentir orgulho de ser brasileiro… Texto de Alexandre Pelegi

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