Portas fechadas a propostas

  Donos de antigos casarões em áreas com os metros quadrados mais valorizados da cidade já se acostumaram a recusar ofertas de venda que fariam imóveis dar lugar a novos prédios
JACKSON ROMANELLI/EM/D.A PRESS
Na Rua Alagoas, casa conserva características originais, com pequenas modificações. Proprietária não admite nem mesmo considerar ofertas
Acompanhe também o Comprenaplanta pelo Twitter O cadeado no portão é sinal de que a casa está fechada – para intrusos, desconhecidos e, principalmente, para propostas, até mesmo as com mais de seis dígitos. Entre os arranha-céus e a efervescência de centros comerciais, moradores antigos da capital resistem às pressões do crescimento urbano e preservam, em alguns dos metros quadrados mais cobiçados da cidade, casas que remontam a uma outra Belo Horizonte: dos jardins, dos vizinhos de muro, dos bondes. São heróis que, mesmo sem ter os bens tombados pelo patrimônio histórico, não sucumbiram aos acenos da especulação imobiliária, enfrentaram a perda da vizinhança, o medo do isolamento e mantêm acesa a memória de uma cidade bem diferente. “Você, por acaso, está vendo alguma uma placa de ‘vende-se’?” É essa a resposta que Maria Aparecida Costa e Silva, de 72 anos, se acostumou a dar quando é importunada por alguém interessado em comprar o imóvel no Bairro Funcionários, na Região Centro-Sul da cidade. Dona Aparecida chegou ali menina, não se lembra exatamente o ano, mas ainda cursava o ginásio. E de lá não pretende sair tão cedo. “Quando morreu, meu pai pediu que eu seguisse um conselho, que zelasse sempre por essa casa, porque é uma das poucas coisas que nós conquistamos, além da honestidade, da educação e do exemplo”, relembra, emocionada. A casa passou por algumas adaptações, mas mantém as mesmas características de antigamente, como as grades em forma de ramo nas janelas de madeira. “Nem imagino essa casa sendo demolida”, frisa Aparecida. A impressão da proprietária de uma casa de mais de 60 anos no Bairro Sion, na Região Centro-Sul de BH, que preferiu não se identificar, é de que BH está se tornando uma cidade sem história. Ela herdou dos pais um casarão com pilastras redondas e jardim cuidado com esmero. Acredita que o imóvel da família é parte de uma outra cidade. “Havia várias casas como a nossa. Já recebi diversas propostas, mas não quero nem considerar. Sei que teria um bom preço, mas não estou interessada. Não vejo motivo para vender e jogarem tudo no chão.” Essa hipótese tampouco passa pela cabeça do historiador aposentado Daniel Antunes Júnior, de 89. Com muito esforço, ele comprou, em 1959, de um português, uma casa ampla no já sofisticado Bairro de Lourdes, hoje ocupado por prédios, principalmente. Foi ali o lugar que escolheu para criar os cinco filhos e para ficar por toda a vida. “Acho que deveriam fazer a expansão em outras áreas da cidade e preservar essas casas que estão indo ao chão. BH nasceu para ter um bom urbanismo, mas acabou crescendo muito em bairros dentro da Avenida do Contorno”, diz. Para Daniel, que já se cansou de recusar propostas, de até R$ 5 milhões, o toque da campainha é quase sinônimo de que nova oferta está chegando. Mas a resposta ele tem na ponta da língua. “Não preciso de vendê-la, gosto de morar em casa, aqui nasceram meus filhos e Lourdes é um bairro muito bom”, enumera o proprietário do imóvel da década de 1940, com azulejos portugueses na fachada. MERCADO O presidente da Câmara do Mercado Imobiliário de Minas Gerais (CMI/Secovi-MG), Ariano Cavalcanti, explica que essa procura por casas antigas na Região Centro-Sul de BH é fruto da falta de áreas livres. “Como há poucos terrenos, esses são os mais visados. Há negociações em cima de prédios e casas antigas, tudo isso em virtude da escassez. E a Região Centro-Sul é a mais procurada”, afirma Cavalcanti, contando que o metro quadrado na área pode chegar a R$ 4 mil. Ele pondera que o mercado tem encontrado soluções interessantes para conciliar patrimônio histórico e novos empreendimentos. “Temos visto belas construções em imóveis tombados.” Flávia Ayer – Estado de Minas

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